Indígenas Guarani Kaiowá continuam a sofrer na sua própria terra

A jovem de 17 anos Julia Venezuela Almeida Guarani Kaiowá foi baleada, de acordo com os indígenas, o corpo sequestrado para uma das caminhonetes e até o momento segue desaparecida
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Por Patrícia Bonilha e Renato Santana, da Assessoria de Comunicação do Cimi

Menos de 24 horas depois de um grupo armado atacar a área de retomada do Tekoha – lugar onde se é – Tey’Juçu, município de Caarapó, Mato Grosso do Sul, liderança dos Kaiowá e Guarani da comunidade afirma ter recebido uma ligação do proprietário da Fazenda Burana, que incide sobre a terra indígena, onde o sujeito marcou para esta terça-feira, 9, entre 14 e 15 horas, novo ataque contra os indígenas. “Ofereceu dinheiro para sairmos e quando eu disse que não aceitaria ele anunciou o ataque”, diz Edson Chamorro Guarani Kaiowá. A agressão com hora marcada poderá acontecer na sequência do desaparecimento de uma jovem indígena, durante o primeiro ataque sofrido pela comunidade.

Na tarde desta segunda-feira, 9, por volta das 16h30, o grupo armado chegou à retomada descendo de dezenas de caminhonetes, que cercaram os barracos improvisados. Conforme os relatos de indígenas vítimas da ofensiva covarde, capangas passaram a atirar contra a comunidade. Enquanto descarregavam suas armas, explica os Kaiowá e Guarani ouvidos pelo Cimi, os motoristas davam cavalos de pau para levantar poeira e acuar o acampamento. Nessa hora, afirmam os indígenas entrevistados, a jovem Julia Venezuela Almeida Guarani Kaiowá, de 17 anos, caiu depois de ser baleada. O ataque lembra o episódio que culminou com o assassinato do cacique Nísio Gomes Guarani Kaiowá (na foto abaixo, à esquerda), em 18 de novembro de 2011. Depois de assassinado, um consórcio envolvendo fazendeiros, advogados e uma empresa de segurança deram fim ao corpo do indígena depois de levá-lo numa caçamba de caminhonete.

“Eram todos hilux, carro de luxo, de fazendeiro. Chegaram e já foram atirando”, afirma Otoniel Guarani Kaiowá. A liderança estava na estrada quando viu a aproximação dos veículos – mais ou menos 40, na contagem dos indígenas. “No meio da poeira eu vi o corpo da guria ser arrastado e jogado na caçamba de uma das caminhonetes, que partiu em alta velocidade. Desde então ela está desaparecida e acho que morta”, explica Chamorro. O indígena é enfático ao dizer que não aceita nenhuma quantia para sair de Tey’Juçu. Do local os Kaiowá e Guarani foram expulsos há algumas décadas atrás. O avô de Julia, inclusive, foi assassinado em Tey’Juçu há 55 anos, período em começaram a ser expulsos do tekoha. Se chamava Vento Almeida.

“A sepultura dele ainda tá nesta terra”, afirma Leonardo de Souza Kunumi Jeroñtva, 2º cacique do Tekoha Tey’YiKue, que ao lado de Tey’Juçu compõe o território tradicional em processo de demarcação pela Funai. Naquelas terras o latifúndio é de soja. “A menina estava no campo de soja quando eles chegaram atirando. Eles deram vários tiros de revólver e levantaram muita poeira com as caminhonetes. Os parentes correram. Depois, viram quando a menina foi arrastada e colocada na caminhonete”, enfatiza os fatos Jeroñtya. A comunidade, inclusive, sabe quem atirou em Julia. “Disseram que ele fugiu da cidade. Foi a informação que conseguimos. Quero saber das autoridades agora”, denuncia.

De acordo com ele, esta tragédia e as outras, como a morte e o desaparecimento de Nísio Gomes e do professor Rolindo Vera, acontecem porque o governo não defende os indígenas, nem os direitos que eles têm. “Estamos só por nós mesmos. Por isso que os fazendeiros fazem o que querem. Por isso que aconteceu este problema. Fico muito emocionado porque eles querem ver morrer todo indígena para poder pegar todas as terras das nossas aldeias”, desabafa Kunumi, abalado. O cacique do tekoha de Kunumi, Lourival Kaiowá, garante que agora é mais fácil todos os Kaiowá e Guarani saírem mortos da terra do que correndo dos fazendeiros e seus capangas. “Não nos vingamos, mesmo depois de nos terem matado tanto. O que a gente quer é a terra que os pais e avôs viveram e morreram. Querem nosso sangue, mas não queremos o sangue de ninguém. Apenas nossa terra, onde o pó dos antepassados esta misturado”, salienta Lourival.

A paralisação das demarcações de terras indígenas em todo o país tem tido efeitos cada vez mais trágicos nos territórios. As mesas de diálogo impostas pelo Ministério da Justiça, em detrimento da aplicação das leis, tampouco funcionam. Desta vez, o ataque aconteceu no Tekoha Tey’Juçu, onde cerca de 300 indígenas retomaram uma parte da sua terra tradicional, no último domingo, 7, motivados pelo desmatamento realizado pela usina sucroalcooleira Nova América. O próximo tem data e hora marcada. Até quando?

Leia mais: Contra derrubada de árvores, grupo Kaiowá retoma área de território tradicional no MS

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