Mensagem do Papa para a Quaresma 2014

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Queridos irmãos e irmãs!

Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: « Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza » (2 Cor 8,9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?

1. A graça de Cristo

Tais palavras dizem-nos, antes de mais nada, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: « sendo rico, Se fez pobre por vós ». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, « esvaziou-Se », para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fil 2,7; Heb 4,15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez connosco. Na realidade, Jesus « trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, excepto no pecado » (ConC. ECum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).

A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – « para vos enriquecer com a sua pobreza ». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Baptista para O baptizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a « insondável riqueza de Cristo » (Ef 3,8), « herdeiro de todas as coisas » (Heb 1,2).

Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10,25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu « jugo suave » (cf. Mt 11,30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua « rica pobreza » e « pobre riqueza », a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf. Rm 8,29).

Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.

2. O nosso testemunho

Poderíamos pensar que este « caminho » da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d’Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.

À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.

Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se vêem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.

O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.

Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.

Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser « tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo » (2 Cor 6,10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, 26 de Dezembro de 2013

Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir

FRANCISCUS

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MENSAGEM DO SANTO PADRE PARA A CELEBRAÇÃO DO XLVII DIA MUNDIAL DA PAZ

1º DE JANEIRO DE 2014

FRATERNIDADE, FUNDAMENTO E CAMINHO PARA A PAZ

1.  Nesta minha primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz, desejo formular  a todos, indivíduos e povos, votos duma vida repleta de alegria e esperança. Com  efeito, no coração de cada homem e mulher, habita o anseio duma vida plena que  contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os  outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos  acolher e abraçar.

Na realidade, a fraternidade é uma dimensão essencial do homem, sendo ele um ser  relacional. A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar  cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência,  torna-se impossível a construção duma sociedade justa, duma paz firme e  duradoura. E convém desde já lembrar que a fraternidade se começa a aprender  habitualmente no seio da família, graças sobretudo às funções responsáveis e  complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da mãe. A família é a  fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo também o fundamento e o  caminho primário para a paz, já que, por vocação, deveria contagiar o mundo com  o seu amor.

O número sempre crescente de ligações e comunicações que envolvem o nosso  planeta torna mais palpável a consciência da unidade e partilha dum destino  comum entre as nações da terra. Assim, nos dinamismos da história –  independentemente da diversidade das etnias, das sociedades e das culturas –,  vemos semeada a vocação a formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem  mutuamente e cuidam uns dos outros. Contudo, ainda hoje, esta vocação é muitas  vezes contrastada e negada nos factos, num mundo caracterizado pela  «globalização da indiferença» que lentamente nos faz «habituar» ao sofrimento  alheio, fechando-nos em nós mesmos.

Em muitas partes do mundo, parece não conhecer tréguas a grave lesão dos  direitos humanos fundamentais, sobretudo dos direitos à vida e à liberdade de  religião. Exemplo preocupante disso mesmo é o dramático fenómeno do tráfico de  seres humanos, sobre cuja vida e desespero especulam pessoas sem escrúpulos. Às  guerras feitas de confrontos armados juntam-se guerras menos visíveis, mas não  menos cruéis, que se combatem nos campos económico e financeiro com meios  igualmente demolidores de vidas, de famílias, de empresas.

A globalização, como afirmou Bento XVI, torna-nos vizinhos, mas não nos faz  irmãos.[1] As inúmeras situações de  desigualdade, pobreza e injustiça indicam não só uma profunda carência de  fraternidade, mas também a ausência duma cultura de solidariedade. As novas  ideologias, caracterizadas por generalizado individualismo, egocentrismo e  consumismo materialista, debilitam os laços sociais, alimentando aquela  mentalidade do «descartável» que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos,  daqueles que são considerados «inúteis». Assim, a convivência humana  assemelha-se sempre mais a um mero do ut des pragmático e egoísta.

Ao mesmo tempo, resulta claramente que as próprias éticas contemporâneas se  mostram incapazes de produzir autênticos vínculos de fraternidade, porque uma  fraternidade privada da referência a um Pai comum como seu fundamento último não  consegue subsistir.[2] Uma verdadeira  fraternidade entre os homens supõe e exige uma paternidade transcendente. A  partir do reconhecimento desta paternidade, consolida-se a fraternidade entre os  homens, ou seja, aquele fazer-se «próximo» para cuidar do outro.

«Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9)

2. Para compreender melhor esta vocação do homem à fraternidade e para  reconhecer de forma mais adequada os obstáculos que se interpõem à sua  realização e identificar as vias para a superação dos mesmos, é fundamental  deixar-se guiar pelo conhecimento do desígnio de Deus, tal como se apresenta de  forma egrégia na Sagrada Escritura.

Segundo a narração das origens, todos os homens provêm dos mesmos pais, de Adão  e Eva, casal criado por Deus à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26), do  qual nascem Caim e Abel. Na história desta família primigénia, lemos a origem da  sociedade, a evolução das relações entre as pessoas e os povos.

Abel é pastor, Caim agricultor. A sua identidade profunda e, conjuntamente, a  sua vocação é ser irmãos, embora na diversidade da sua actividade e  cultura, da sua maneira de se relacionarem com Deus e com a criação. Mas o  assassinato de Abel por Caim atesta, tragicamente, a rejeição radical da vocação  a ser irmãos. A sua história (cf. Gn 4, 1-16) põe em evidência o difícil  dever, a que todos os homens são chamados, de viver juntos, cuidando uns dos  outros. Caim, não aceitando a predilecção de Deus por Abel, que Lhe oferecia o  melhor do seu rebanho – «o Senhor olhou com agrado para Abel e para a sua  oferta, mas não olhou com agrado para Caim nem para a sua oferta» (Gn 4,  4-5) –, mata Abel por inveja. Desta forma, recusa reconhecer-se irmão,  relacionar-se positivamente com ele, viver diante de Deus, assumindo as suas  responsabilidades de cuidar e proteger o outro. À pergunta com que Deus  interpela Caim – «onde está o teu irmão?» –, pedindo-lhe contas da sua acção,  responde: «Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4,  9). Depois – diz-nos o livro do Génesis –, «Caim afastou-se da presença do  Senhor» (4, 16).

É preciso interrogar-se sobre os motivos profundos que induziram Caim a ignorar  o vínculo de fraternidade e, simultaneamente, o vínculo de reciprocidade e  comunhão que o ligavam ao seu irmão Abel. O próprio Deus denuncia e censura a  Caim a sua contiguidade com o mal: «o pecado deitar-se-á à tua porta» (Gn 4, 7). Mas Caim recusa opor-se ao mal, e decide igualmente «lançar-se sobre o  irmão» (Gn 4, 8), desprezando o projecto de Deus. Deste modo, frustra a  sua vocação original para ser filho de Deus e viver a fraternidade.

A narração de Caim e Abel ensina que a humanidade traz inscrita em si mesma uma  vocação à fraternidade, mas também a possibilidade dramática da sua traição.  Disso mesmo dá testemunho o egoísmo diário, que está na base de muitas guerras e  injustiças: na realidade, muitos homens e mulheres morrem pela mão de irmãos e  irmãs que não sabem reconhecer-se como tais, isto é, como seres feitos para a  reciprocidade, a comunhão e a doação.

«E vós sois todos irmãos» (Mt 23, 8)

3. Surge espontaneamente a pergunta: poderão um dia os homens e as mulheres  deste mundo corresponder plenamente ao anseio de fraternidade, gravado neles por  Deus Pai? Conseguirão, meramente com as suas forças, vencer a indiferença, o  egoísmo e o ódio, aceitar as legítimas diferenças que caracterizam os irmãos e  as irmãs?

Parafraseando as palavras do Senhor Jesus, poderemos sintetizar assim a resposta  que Ele nos dá: dado que há um só Pai, que é Deus, vós sois todos irmãos (cf. Mt 23, 8-9). A raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus. Não  se trata de uma paternidade genérica, indistinta e historicamente ineficaz, mas  do amor pessoal, solícito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos  homens (cf. Mt 6, 25-30). Trata-se, por conseguinte, de uma paternidade  eficazmente geradora de fraternidade, porque o amor de Deus, quando é acolhido,  torna-se no mais admirável agente de transformação da vida e das relações com o  outro, abrindo os seres humanos à solidariedade e à partilha activa.

Em particular, a fraternidade humana foi regenerada em e por Jesus  Cristo, com a sua morte e ressurreição. A cruz é o «lugar» definitivo de fundação da fraternidade que os homens, por si sós, não são capazes de  gerar. Jesus Cristo, que assumiu a natureza humana para a redimir, amando o Pai  até à morte e morte de cruz (cf. Fl 2, 8), por meio da sua ressurreição  constitui-nos como humanidade nova, em plena comunhão com a vontade de  Deus, com o seu projecto, que inclui a realização plena da vocação à  fraternidade.

Jesus retoma o projecto inicial do Pai, reconhecendo-Lhe a primazia sobre todas  as coisas. Mas Cristo, com o seu abandono até à morte por amor do Pai, torna-Se princípio novo e definitivo de todos nós, chamados a  reconhecer-nos n’Ele como irmãos, porque filhos do mesmo Pai. Ele é a  própria Aliança, o espaço pessoal da reconciliação do homem com Deus e dos  irmãos entre si. Na morte de Jesus na cruz, ficou superada também a separação entre os povos, entre o povo da Aliança e o povo dos Gentios, privado de  esperança porque permanecera até então alheio aos pactos da Promessa. Como se lê  na Carta aos Efésios, Jesus Cristo é Aquele que reconcilia em Si todos os  homens. Ele é a paz, porque, dos dois povos, fez um só, derrubando o muro  de separação que os dividia, ou seja, a inimizade. Criou em Si mesmo um só povo,  um só homem novo, uma só humanidade nova (cf. 2,14-16).

Quem aceita a vida de Cristo e vive n’Ele, reconhece Deus como Pai e a Ele Se  entrega totalmente, amando-O acima de todas as coisas. O homem reconciliado vê,  em Deus, o Pai de todos e, consequentemente, é solicitado a viver uma  fraternidade aberta a todos. Em Cristo, o outro é acolhido e amado como filho ou  filha de Deus, como irmão ou irmã, e não como um estranho, menos ainda como um  antagonista ou até um inimigo. Na família de Deus, onde todos são filhos dum  mesmo Pai e, porque enxertados em Cristo, filhos no Filho, não há «vidas  descartáveis». Todos gozam de igual e inviolável dignidade; todos são amados por  Deus, todos foram resgatados pelo sangue de Cristo, que morreu na cruz e  ressuscitou por cada um. Esta é a razão pela qual não se pode ficar indiferente  perante a sorte dos irmãos.

A fraternidade, fundamento e caminho para a paz

4. Suposto isto, é fácil compreender que a fraternidade é fundamento e caminho para a paz. As Encíclicas sociais dos meus Predecessores  oferecem uma ajuda valiosa neste sentido. Basta ver as definições de paz da Populorum progressio, de Paulo VI, ou da Sollicitudo rei socialis, de João Paulo II. Da primeira, apreendemos que o desenvolvimento integral dos povos  é o novo nome da paz[3] e, da  segunda, que a paz é opus solidaritatis, fruto da solidariedade.[4]

Paulo VI afirma que tanto as pessoas como as nações se devem encontrar num  espírito de fraternidade. E explica: «Nesta compreensão e amizade mútuas, nesta  comunhão sagrada, devemos (…) trabalhar juntos para construir o futuro comum  da humanidade».[5] Este dever recai  primariamente sobre os mais favorecidos. As suas obrigações radicam-se na  fraternidade humana e sobrenatural, apresentando-se sob um tríplice aspecto: o dever de solidariedade, que exige que as nações ricas ajudem as menos  avançadas; o dever de justiça social, que requer a reformulação em termos  mais correctos das relações defeituosas entre povos fortes e povos fracos; o dever de caridade universal, que implica a promoção de um mundo mais humano  para todos, um mundo onde todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que  o progresso de uns seja obstáculo ao desenvolvimento dos outros.[6]

Ora, da mesma forma que se considera a paz como opus solidarietatis, é impossível não pensar que o seu fundamento principal seja a fraternidade. A paz, afirma João Paulo II, é um bem indivisível: ou é bem de todos, ou não o é de  ninguém. Na realidade, a paz só pode ser conquistada e usufruída como melhor  qualidade de vida e como desenvolvimento mais humano e sustentável, se estiver  viva, em todos, «a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem  comum».[7] Isto implica não deixar-se  guiar pela «avidez do lucro» e pela «sede do poder». É preciso estar pronto a  «“perder-se” em benefício do próximo em vez de o explorar, e a “servi-lo” em vez  de o oprimir para proveito próprio (…). O “outro” – pessoa, povo ou nação –  [não deve ser visto] como um instrumento qualquer, de que se explora, a baixo  preço, a capacidade de trabalhar e a resistência física, para o abandonar quando  já não serve; mas sim como um nosso “semelhante”, um “auxílio”».[8]

A solidariedade cristã pressupõe que o próximo seja amado não só como «um  ser humano com os seus direitos e a sua igualdade fundamental em relação a todos  os demais, mas [como] a imagem viva de Deus Pai, resgatada pelo sangue de  Jesus Cristo e tornada objecto da acção permanente do Espírito Santo»,[9] como um irmão. «Então a consciência da paternidade comum de Deus, da fraternidade de todos os homens em Cristo, “filhos no Filho”, e da presença e da acção vivificante do Espírito Santo conferirá – lembra João Paulo II – ao nosso  olhar sobre o mundo como que um novo critério para o interpretar»,[10] para o transformar.

A fraternidade, premissa para vencer a pobreza

5. Na Caritas in veritate, o meu Predecessor lembrava ao mundo que  uma causa importante da pobreza é a falta de fraternidade entre os  povos e entre os homens.[11] Em  muitas sociedades, sentimos uma profunda pobreza relacional, devido à  carência de sólidas relações familiares e comunitárias; assistimos, preocupados,  ao crescimento de diferentes tipos de carências, marginalização, solidão e de  várias formas de dependência patológica. Uma tal pobreza só pode ser superada  através da redescoberta e valorização de relações fraternas no seio das  famílias e das comunidades, através da partilha das alegrias e tristezas, das  dificuldades e sucessos presentes na vida das pessoas.

Além disso, se por um lado se verifica uma redução da pobreza absoluta,  por outro não podemos deixar de reconhecer um grave aumento da pobreza  relativa, isto é, de desigualdades entre pessoas e grupos que convivem numa  região específica ou num determinado contexto histórico-cultural. Neste sentido,  servem políticas eficazes que promovam o princípio da fraternidade,  garantindo às pessoas – iguais na sua dignidade e nos seus direitos fundamentais  – acesso aos «capitais», aos serviços, aos recursos educativos, sanitários e  tecnológicos, para que cada uma delas tenha oportunidade de exprimir e realizar  o seu projecto de vida e possa desenvolver-se plenamente como pessoa.

Reconhece-se haver necessidade também de políticas que sirvam para atenuar a  excessiva desigualdade de rendimento. Não devemos esquecer o ensinamento da Igreja sobre a chamada  hipoteca social, segundo a qual, se é lícito – como diz São Tomás de  Aquino – e mesmo necessário que «o homem tenha a propriedade dos bens»,[12] quanto ao uso, porém, «não deve considerar as coisas exteriores que  legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que  possam beneficiar não só a si mas também aos outros».[13]

Por último, há uma forma de promover a fraternidade – e, assim, vencer a pobreza  – que deve estar na base de todas as outras. É o desapego vivido por quem  escolhe estilos de vida sóbrios e essenciais, por quem, partilhando as suas  riquezas, consegue assim experimentar a comunhão fraterna com os outros. Isto é  fundamental, para seguir Jesus Cristo e ser verdadeiramente cristão. É o caso  não só das pessoas consagradas que professam voto de pobreza, mas também de  muitas famílias e tantos cidadãos responsáveis que acreditam firmemente que a  relação fraterna com o próximo constitua o bem mais precioso.

A redescoberta da fraternidade na economia

6. As graves crises financeiras e económicas dos nossos dias – que têm a sua origem no progressivo afastamento do homem de Deus e do próximo, com a ambição desmedida de bens materiais, por um lado, e o empobrecimento das relações interpessoais e comunitárias, por outro – impeliram muitas pessoas a buscar o bem-estar, a felicidade e a segurança no consumo e no lucro fora de toda a lógica duma economia saudável. Já, em 1979, o Papa João Paulo II alertava  para a existência de «um real e perceptível perigo de que, enquanto progride  enormemente o domínio do homem sobre o mundo das coisas, ele perca os fios  essenciais deste seu domínio e, de diversas maneiras, submeta a elas a sua  humanidade, e ele próprio se torne objecto de multiforme manipulação, se bem que  muitas vezes não directamente perceptível; manipulação através de toda a  organização da vida comunitária, mediante o sistema de produção e por meio de  pressões dos meios de comunicação social».[14]

As sucessivas crises económicas devem levar a repensar adequadamente os modelos  de desenvolvimento económico e a mudar os estilos de vida. A crise actual, com  pesadas consequências na vida das pessoas, pode ser também uma ocasião propícia  para recuperar as virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza. Elas  podem ajudar-nos a superar os momentos difíceis e a redescobrir os laços  fraternos que nos unem uns aos outros, com a confiança profunda de que o homem  tem necessidade e é capaz de algo mais do que a maximização do próprio lucro  individual. As referidas virtudes são necessárias sobretudo para construir e  manter uma sociedade à medida da dignidade humana.

A fraternidade extingue a guerra

7. Ao longo do ano que termina, muitos irmãos e irmãs nossos continuaram a  viver a experiência dilacerante da guerra, que constitui uma grave e profunda  ferida infligida à fraternidade.

Há muitos conflitos que se consumam na indiferença geral. A todos aqueles que  vivem em terras onde as armas impõem terror e destruição, asseguro a minha  solidariedade pessoal e a de toda a Igreja. Esta última tem por missão levar o  amor de Cristo também às vítimas indefesas das guerras esquecidas, através da  oração pela paz, do serviço aos feridos, aos famintos, aos refugiados, aos  deslocados e a quantos vivem no terror. De igual modo a Igreja levanta a sua voz  para fazer chegar aos responsáveis o grito de dor desta humanidade atribulada e  fazer cessar, juntamente com as hostilidades, todo o abuso e violação dos  direitos fundamentais do homem.[15]

Por este motivo, desejo dirigir um forte apelo a quantos semeiam violência e  morte, com as armas: naquele que hoje considerais apenas um inimigo a abater,  redescobri o vosso irmão e detende a vossa mão! Renunciai à via das armas e ide  ao encontro do outro com o diálogo, o perdão e a reconciliação para reconstruir  a justiça, a confiança e esperança ao vosso redor! «Nesta óptica, torna-se claro  que, na vida dos povos, os conflitos armados constituem sempre a deliberada  negação de qualquer concórdia internacional possível, originando divisões  profundas e dilacerantes feridas que necessitam de muitos anos para se curarem.  As guerras constituem a rejeição prática de se comprometer para alcançar aquelas  grandes metas económicas e sociais que a comunidade internacional estabeleceu».[16]

Mas, enquanto houver em circulação uma quantidade tão grande como a actual de  armamentos, poder-se-á sempre encontrar novos pretextos para iniciar as  hostilidades. Por isso, faço meu o apelo lançado pelos meus Predecessores a  favor da não-proliferação das armas e do desarmamento por parte de todos, a  começar pelo desarmamento nuclear e químico.

Não podemos, porém, deixar de constatar que os acordos internacionais e as leis  nacionais, embora sendo necessários e altamente desejáveis, por si sós não  bastam para preservar a humanidade do risco de conflitos armados. É precisa uma  conversão do coração que permita a cada um reconhecer no outro um irmão do qual  cuidar e com o qual trabalhar para, juntos, construírem uma vida em plenitude  para todos. Este é o espírito que anima muitas das iniciativas da sociedade  civil, incluindo as organizações religiosas, a favor da paz. Espero que o  compromisso diário de todos continue a dar fruto e que se possa chegar também à  efectiva aplicação, no direito internacional, do direito à paz como direito  humano fundamental, pressuposto necessário para o exercício de todos os outros  direitos.

A corrupção e o crime organizado contrastam a fraternidade

8. O horizonte da fraternidade apela ao crescimento em plenitude de todo o  homem e mulher. As justas ambições duma pessoa, sobretudo se jovem, não devem  ser frustradas nem lesadas; não se lhe deve roubar a esperança de podê-las  realizar. A ambição, porém, não deve ser confundida com prevaricação; pelo  contrário, é necessário competir na mútua estima (cf. Rm 12, 10). Mesmo  nas disputas, que constituem um aspecto inevitável da vida, é preciso  recordar-se sempre de que somos irmãos; por isso, é necessário educar e  educar-se para não considerar o próximo como um inimigo nem um adversário a  eliminar.

A fraternidade gera paz social, porque cria um equilíbrio entre liberdade e  justiça, entre responsabilidade pessoal e solidariedade, entre bem dos  indivíduos e bem comum. Uma comunidade política deve, portanto, agir de forma  transparente e responsável para favorecer tudo isto. Os cidadãos devem sentir-se  representados pelos poderes públicos, no respeito da sua liberdade. Em vez  disso, muitas vezes, entre cidadão e instituições, interpõem-se interesses  partidários que deformam essa relação, favorecendo a criação dum clima perene de  conflito.

Um autêntico espírito de fraternidade vence o egoísmo individual, que contrasta  a possibilidade das pessoas viverem em liberdade e harmonia entre si. Tal  egoísmo desenvolve-se, socialmente, quer nas muitas formas de corrupção que hoje  se difunde de maneira capilar, quer na formação de organizações criminosas –  desde os pequenos grupos até àqueles organizados à escala global – que, minando  profundamente a legalidade e a justiça, ferem no coração a dignidade da pessoa.  Estas organizações ofendem gravemente a Deus, prejudicam os irmãos e lesam a  criação, revestindo-se duma gravidade ainda maior se têm conotações religiosas.

Penso no drama dilacerante da droga com a qual se lucra desafiando leis morais e  civis, na devastação dos recursos naturais e na poluição em curso, na tragédia  da exploração do trabalho; penso nos tráficos ilícitos de dinheiro como também  na especulação financeira que, muitas vezes, assume caracteres predadores e  nocivos para inteiros sistemas económicos e sociais, lançando na pobreza milhões  de homens e mulheres; penso na prostituição que diariamente ceifa vítimas  inocentes, sobretudo entre os mais jovens, roubando-lhes o futuro; penso no  abomínio do tráfico de seres humanos, nos crimes e abusos contra menores, na  escravidão que ainda espalha o seu horror em muitas partes do mundo, na tragédia  frequentemente ignorada dos emigrantes sobre quem se especula indignamente na  ilegalidade. A este respeito escreveu João XXIII: «Uma convivência baseada  unicamente em relações de força nada tem de humano: nela vêem as pessoas  coarctada a própria liberdade, quando, pelo contrário, deveriam ser postas em  condição tal que se sentissem estimuladas a procurar o próprio desenvolvimento e  aperfeiçoamento».[17] Mas o homem  pode converter-se, e não se deve jamais desesperar da possibilidade de mudar de  vida. Gostaria que isto fosse uma mensagem de confiança para todos, mesmo para  aqueles que cometeram crimes hediondos, porque Deus não quer a morte do pecador,  mas que se converta e viva (cf. Ez 18, 23).

No contexto alargado da sociabilidade humana, considerando o delito e a pena,  penso também nas condições desumanas de muitos estabelecimentos prisionais, onde  frequentemente o preso acaba reduzido a um estado sub-humano, violado na sua  dignidade de homem e sufocado também em toda a vontade e expressão de resgate. A  Igreja faz muito em todas estas áreas, a maior parte das vezes sem rumor. Exorto  e encorajo a fazer ainda mais, na esperança de que tais acções desencadeadas por  tantos homens e mulheres corajosos possam cada vez mais ser sustentadas, leal e  honestamente, também pelos poderes civis.

A fraternidade ajuda a guardar e cultivar a natureza

9. A família humana recebeu, do Criador, um dom em comum: a natureza. A  visão cristã da criação apresenta um juízo positivo sobre a licitude das  intervenções na natureza para dela tirar benefício, contanto que se actue  responsavelmente, isto é, reconhecendo aquela «gramática» que está inscrita nela  e utilizando, com sabedoria, os recursos para proveito de todos, respeitando a  beleza, a finalidade e a utilidade dos diferentes seres vivos e a sua função no  ecossistema. Em suma, a natureza está à nossa disposição, mas somos chamados a  administrá-la responsavelmente. Em vez disso, muitas vezes deixamo-nos guiar  pela ganância, pela soberba de dominar, possuir, manipular, desfrutar; não  guardamos a natureza, não a respeitamos, nem a consideramos como um dom gratuito  de que devemos cuidar e colocar ao serviço dos irmãos, incluindo as gerações  futuras.

De modo particular o sector produtivo primário, o sector agrícola, tem a  vocação vital de cultivar e guardar os recursos naturais para alimentar a  humanidade. A propósito, a persistente vergonha da fome no mundo leva-me a  partilhar convosco esta pergunta: De que modo usamos os recursos da terra?  As sociedades actuais devem reflectir sobre a hierarquia das prioridades no  destino da produção. De facto, é um dever impelente que se utilizem de tal modo  os recursos da terra, que todos se vejam livres da fome. As iniciativas e as  soluções possíveis são muitas, e não se limitam ao aumento da produção. É mais  que sabido que a produção actual é suficiente, e todavia há milhões de pessoas  que sofrem e morrem de fome, o que constitui um verdadeiro escândalo. Por isso,  é necessário encontrar o modo para que todos possam beneficiar dos frutos da  terra, não só para evitar que se alargue o fosso entre aqueles que têm mais e os  que devem contentar-se com as migalhas, mas também e sobretudo por uma exigência  de justiça e equidade e de respeito por cada ser humano. Neste sentido, gostaria  de lembrar a todos o necessário destino universal dos bens, que é um dos  princípios fulcrais da doutrina social da Igreja. O respeito deste princípio é a  condição essencial para permitir um acesso real e equitativo aos bens essenciais  e primários de que todo o homem precisa e tem direito.

Conclusão

10. Há necessidade que a fraternidade seja descoberta, amada, experimentada,  anunciada e testemunhada; mas só o amor dado por Deus é que nos permite acolher  e viver plenamente a fraternidade.

O necessário realismo da política e da economia não pode reduzir-se a um  tecnicismo sem ideal, que ignora a dimensão transcendente do homem. Quando falta  esta abertura a Deus, toda a actividade humana se torna mais pobre, e as pessoas  são reduzidas a objecto passível de exploração. Somente se a política e a  economia aceitarem mover-se no amplo espaço assegurado por esta abertura Àquele  que ama todo o homem e mulher, é que conseguirão estruturar-se com base num  verdadeiro espírito de caridade fraterna e poderão ser instrumento eficaz de  desenvolvimento humano integral e de paz.

Nós, cristãos, acreditamos que, na Igreja, somos membros uns dos outros e todos  mutuamente necessários, porque a cada um de nós foi dada uma graça, segundo a  medida do dom de Cristo, para utilidade comum (cf. Ef 4, 7.25; 1 Cor 12, 7). Cristo veio ao mundo para nos trazer a graça divina, isto é, a  possibilidade de participar na sua vida. Isto implica tecer um relacionamento  fraterno, caracterizado pela reciprocidade, o perdão, o dom total de si mesmo,  segundo a grandeza e a profundidade do amor de Deus, oferecido à humanidade por  Aquele que, crucificado e ressuscitado, atrai todos a Si: «Dou-vos um novo  mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim  como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se  vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 34-35). Esta é a boa nova que requer,  de cada um, um passo mais, um exercício perene de empatia, de escuta do  sofrimento e da esperança do outro, mesmo do que está mais distante de mim,  encaminhando-se pela estrada exigente daquele amor que sabe doar-se e gastar-se  gratuitamente pelo bem de cada irmão e irmã.

Cristo abraça todo o ser humano e deseja que ninguém se perca. «Deus não enviou  o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por  Ele» (Jo 3, 17). Fá-lo sem oprimir, sem forçar ninguém a abrir-Lhe as  portas do coração e da mente. «O que for maior entre vós seja como o menor, e  aquele que mandar, como aquele que serve – diz Jesus Cristo –. Eu estou no meio  de vós como aquele que serve» (Lc 22, 26-27). Deste modo, cada actividade  deve ser caracterizada por uma atitude de serviço às pessoas, incluindo as mais  distantes e desconhecidas. O serviço é a alma da fraternidade que edifica a paz.

Que Maria, a Mãe de Jesus, nos ajude a compreender e a viver todos os dias a  fraternidade que jorra do coração do seu Filho, para levar a paz a todo o homem  que vive nesta nossa amada terra.

Vaticano, 8 de Dezembro de 2013.

 

FRANCISCUS


[1]Cf. Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 19: AAS 101 (2009), 654-655.

[2]Cf. Francisco, Carta enc. Lumen fidei (29 de Junho de 2013), 54: AAS 105 (2013), 591-592.

[3]Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 87: AAS 59 (1967), 299.

[4]Cf. João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de  1987), 39: AAS 80 (1988), 566-568.

[5]Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 43: AAS 59  (1967), 278-279.

[6]Cf. ibid., 44: o. c., 279.

[7]Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 38: AAS 80 (1988), 566.

[8] Ibid., 38-39: o. c., 566-567.

[9] Ibid., 40: o. c., 569.

[10] Ibid., 40: o. c., 569.

[11]Cf. Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 19: AAS 101 (2009), 654-655.

[12] Summa theologiae, II-II, q. 66, a. 2.

[13] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 69; cf. Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de  Maio de 1891), 19: ASS 23 (1890-1891), 651; João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 42: AAS 80 (1988),  573-574; Pont. Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da  Igreja, 178.

[14] Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 16: AAS 61  (1979), 290.

[15]Cf. Pont. Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da  Igreja,  159.

[16] Francisco, Carta ao Presidente Vladimir Putin (4 de Setembro de 2013): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 8/IX/2013),  5.

[17] Carta enc. Pacem in terris (11 de Abril de 1963), 17: AAS 55  (1963), 265.

 


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